Antes de sair da casa deixando toda sua vida para trás, tratou de botar o prato dele dentro do forno com arroz, feijão, carne cozida e salada de tomate e alface. Também cuidou de alimentar o canário belga do filho e d=o coelhinho malhado da caçula. Depois regou as samambaias da sogra que repousavam, plácidas, sob o telhado dos fundos, de colher a roupa no varal, conferir se o gás não estava vazando e se as janelas dos quartos não estavam abertas; ia chover, sabia disso. Depois, subiu ao quarto e pôs no papel as palavras de adeus. Sobrescritou o envelope endereçando-a ao marido. Antes de sair do quarto, colocou as chinelas do homem no devido lugar, bem ao seu gosto. Desceu as escadas e, antes de sair, conferiu mais uma vez o gás e as janelas. Deu mais uma torcida na torneira do banheiro. Abriu a porta da frente, trancou-a e meteu as chaves debaixo do vasinho de violetas, presente dos filhos no último dia das Mães. Sabia que o menino sempre esquecia as chaves, tão parecido com o pai até na distração. Desceu os quatro degraus que davam para a pequena aléia do jardim, obra do falecido sogro na qual brotavam já as primeiras floradas. Decidiu regar as plantas. Regou-as. Enrolou a mangueira na velha roda de Kombi dependurada no muro e dirigiu-se ao velho portão de ferro que sempre rangia ao abrir. Colocou a chave no ferrolho; girou-o. É, começou a chuviscar, pensou. Deu meia-volta, passou pela aléia, pegou o molho de chaves debaixo do vaso de violetas e se decidiu a partir no dia seguinte. Mas não partiu.
Eu já li este texto uma vez, você nos passou na escola, mas eu não sabia que era seu.
ResponderExcluir:D
Farrel