sábado, 15 de outubro de 2011

Extenuada e perplexa

            Tinha para si a prima como alguém muito dada às fraquezas da carne, inclusive quando, num jeito muito afetado, dizia “ah, ontem, eu e ele fizemos loucuras... Ele me levou ao sétimo céu... Gozei quatro vezes!” enquanto jogava a cabeça para trás deixando revoltos os cabelos – negríssimos, tresandando creme de frutas cítricas nos quais entremeava os dedos como um pente para corrigir a confusão mental causada pelos apelos sensoriais e noturnos da alma, do corpo.
Não achava indecente fazer amor com quem se gosta, não. Até que na intimidade com seu marido também se entregava; mas não como a outra tão sediciosa que parecia ter o conhecido dias atrás. Não como puta! E assustava-se por pensar, só pensar, em termos tão chulos.

Certa vez ouvira o marido dizendo para um amigo no almoço de domingo pouco antes do futebol: mulher pra mim é assim: tem que ser uma dama na mesa e uma puta na cama. Achou pavoroso, de um preconceito antiqüíssimo. Desde quando mulher para ter prazer precisava ser devassa? Acaso só o homem podia gozar e tudo era convenção social? Depois desconsiderou, porque conversa de domingo com amigo de escritório depois de algumas cervejas não tinha valor algum.

Mas ficara-lhe na cabeça o eco daquela conversa por um bom tempo...

Depois desconsiderou também. Tinha mais o que fazer. A vida para ser vivida, por exemplo.

Em sua opinião, depois de um tempo a paixão dá lugar ao amor, às contas e aos fatos do dia-a-dia: cena do jornal, doença da tia mais velha, dor de dente do menino, sempre chupando balas além da conta e deixando de crescer o quanto devia, temeridade aos olhos do esposo.

A prima não tinha filhos. Corria à boca pequena pelas casas da família que era estéril e que por isso dava-se tanto; medo de perder seu homem, sentenciava a cunhada, mulherzinha muito crítica com a qual conversava pisando em ovos para não deixar escapar nada que pudesse macular seu lar, pois que há desde sempre tinha sido afamada de muito séria e de pensamentos retos, práticos, espécie de matriarca do clã.

Contudo, a bem da verdade o que queria mesmo era um dia, à tarde, sentar de frente para a prima, mais-que-fatal e dizer-lhe na cara deixando-a, ali, vencida: “ontem foi maravilhoso (esticaria a sílaba tônica para causar bastante efeito)... ele me chupou tão gostoso que os dedos das minhas mãos ficaram torcidos por um tempão. Perdi até a voz!”

Diria também que, empunhando o pistilo da flor, vida e glória, força e seiva, abrira-lhe as pétalas da rosa em sinal de oferta para que, deste modo, o zangão, macho atrevido e feroz, tornasse-a plena, mulher.

Mas nunca disse nada, extenuada e perplexa pelos arroubos da outra.

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