sábado, 1 de outubro de 2011

Menino e homem, homem e mulher

Antes que sentisse o gozo, avesso da dor, pôde sentir os beijos (boca e língua quentes), a pele (veludo e couro de cobra), e a luz dos seus olhos (profundidade do cosmo). E era ainda menino sendo recebido no corpo de mulher. Sentiu medo, dor e delícia de ser o que era: menino. Sentiu medo, claridade e sombra, tudo e nada até não ter mais medo de morrer e ser apenas o que era: não ser mais menino. Homem. As veias tiniam no corpo; se embebeu em vida no entre-coxas da mulher. No mais, o que importava? Era homem. E eis o essencial.Mistério. Cáustico e fatídico. Amou sem amor, porque não podia ser amor. Era sexo tão somente; coisa que não leva e nem trás, que não faz sentido fora de si e que não promete e nem cumpre e que não apresenta e nem esconde e que não leva ao mar nem às estrelas nem aos confins. Nada, nada. Nada além de contato, fremir de carnes, espasmos, desatinos, secreções; protuberâncias. Se um dia havia nascido tinha de ser para aquilo: nascer de novo, dum outro corpo que não o de sua mãe (mas sabia que toda mulher carregava um pouco de mãe dentro de si). E por isso mesmo, procurava pelo corpo da outra o segundo nascer. Nascera primeiro menino, sem força e querer. Mamar o peito da mãe era a certeza. E agora, ó Deus? Fazer o quê? Ouvir a verdade silenciosa e sem palavras da outra? Inútil, inútil, pois o aquele corpo, recepo de amor-sem-amor, não era nada além de simulacro (mas era também Alfa e Ômega). E era preciso muita lama e luz e sujeira e dor e montanhas (cruzes, espinhos e coroa) para aquilo tudo superar. Era o caso de purificar, de louvar, de mentir, de ver no dilúvio a chagada e a redenção. Era caso de ser a própria nuvem que esconde o sol, luz e imensidão que trás dos distantes nortes a novidade, o estado diferente das coisas. Queria o batismo. Mas como? Ele é quem tinha o poder, não ela, simples fonte de vida que sem pensamento não era vida. Quis fustigá-la, maldizer-la; amá-la. Chorou, chorou e chorou. Se era, não poderia chorar, ora! Mais uma vez estava desgraçado. E duas vezes por quem deu-lhe a vida. Não podia ter a palavra perfeita e nem eterna no canto de sua boca, no tubo de sua garganta (plena de nós) para dizer o que queria e prantear o que pensava. Já havia, decerto (e fatalmente), gozado.

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