segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Da impossibilidade de ser em mim mesmo ou auto-análise à Sá-Carneiro

Compreendo

os segredos do ar

e ao ar misturo-me:



nego-me a mim mesmo

desejos de ser outro



(mas não o sou

[não sou ninguém]).

domingo, 23 de outubro de 2011

Meu duplo e meu gauche

Tenho medo da morte

e por isso fiz um filho:

miragem de mim mesmo

meu duplo e meu gauche.


Sou-me nele extirpado de mim.

sábado, 15 de outubro de 2011

Sensacionalista

Trago a alma exposta
como que sem corpo,

aberta aos apelos

do mundo sensível:



sensaciono

meu sexo (meus lirismos)

com cores pulsantes



macho e fêmea

conjugados



(tu em mim

[e eu em ti])



mas fora de nós

dispersos no espaço,

além dos outros...

Extenuada e perplexa

            Tinha para si a prima como alguém muito dada às fraquezas da carne, inclusive quando, num jeito muito afetado, dizia “ah, ontem, eu e ele fizemos loucuras... Ele me levou ao sétimo céu... Gozei quatro vezes!” enquanto jogava a cabeça para trás deixando revoltos os cabelos – negríssimos, tresandando creme de frutas cítricas nos quais entremeava os dedos como um pente para corrigir a confusão mental causada pelos apelos sensoriais e noturnos da alma, do corpo.
Não achava indecente fazer amor com quem se gosta, não. Até que na intimidade com seu marido também se entregava; mas não como a outra tão sediciosa que parecia ter o conhecido dias atrás. Não como puta! E assustava-se por pensar, só pensar, em termos tão chulos.

Certa vez ouvira o marido dizendo para um amigo no almoço de domingo pouco antes do futebol: mulher pra mim é assim: tem que ser uma dama na mesa e uma puta na cama. Achou pavoroso, de um preconceito antiqüíssimo. Desde quando mulher para ter prazer precisava ser devassa? Acaso só o homem podia gozar e tudo era convenção social? Depois desconsiderou, porque conversa de domingo com amigo de escritório depois de algumas cervejas não tinha valor algum.

Mas ficara-lhe na cabeça o eco daquela conversa por um bom tempo...

Depois desconsiderou também. Tinha mais o que fazer. A vida para ser vivida, por exemplo.

Em sua opinião, depois de um tempo a paixão dá lugar ao amor, às contas e aos fatos do dia-a-dia: cena do jornal, doença da tia mais velha, dor de dente do menino, sempre chupando balas além da conta e deixando de crescer o quanto devia, temeridade aos olhos do esposo.

A prima não tinha filhos. Corria à boca pequena pelas casas da família que era estéril e que por isso dava-se tanto; medo de perder seu homem, sentenciava a cunhada, mulherzinha muito crítica com a qual conversava pisando em ovos para não deixar escapar nada que pudesse macular seu lar, pois que há desde sempre tinha sido afamada de muito séria e de pensamentos retos, práticos, espécie de matriarca do clã.

Contudo, a bem da verdade o que queria mesmo era um dia, à tarde, sentar de frente para a prima, mais-que-fatal e dizer-lhe na cara deixando-a, ali, vencida: “ontem foi maravilhoso (esticaria a sílaba tônica para causar bastante efeito)... ele me chupou tão gostoso que os dedos das minhas mãos ficaram torcidos por um tempão. Perdi até a voz!”

Diria também que, empunhando o pistilo da flor, vida e glória, força e seiva, abrira-lhe as pétalas da rosa em sinal de oferta para que, deste modo, o zangão, macho atrevido e feroz, tornasse-a plena, mulher.

Mas nunca disse nada, extenuada e perplexa pelos arroubos da outra.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Abrasada

Quando bebia café muito quente e queimava a língua não se queixava: resignava-se com as coisas da vida, sempre acostumada, sempre mulher.

Até o dia que ele chegara cheirando a coisa nova, sensação de puro pecado, de doçura incrível com seus pêlos grossos no rosto, a palma da mão bem grande e uns olhos de menino pidão.

Deu-se.

Recebeu-lhe em si.

Daí por diante, antes de tomar café, sempre bem pelando, dava umas sopradinhas e dizia satisfeita “êta vida besta, meu Deus!”.

domingo, 2 de outubro de 2011

Criacionista

Tive a glória

de inventar teu nome

para ti, quando,

no avesso da dor



desnudados

um pelo outro

revelamo-nos frágeis

tal como cristais.



(e, sem sabermos

fizemos de dois,

apenas um: duplo,

gauche e reflexo



em águas espraiadas

cujas vibrações,

[espasmos sensoriais]

ainda permanecem tácitas).

Triunfo

Colho os louros
dos teus segredos

mais íntimos,

arroubos passionais

na ponta dos dedos



(flor e caule,

macho e fêmea)



com mais-que-sutis

delicadezas de amante, oh,

mulher poética

eriçada de desejo,

bicho no cio.

Meu filho

Meu filho

sou eu

fora de mim

(dentro de ti)

pedaço de nós,

pó de estrelas,

candência entrando-nos

em tua concha-fêmea.



Meu filho é um susto,

espelho,

águas espraiadas

nas quais miro-me:

(Narciso, aberço-me

ante tua figura,

filho incógnito,

imagem sibilina,

esfacelada

intensidades e filigranas).



Meu filho me (nos) nasce

sem rosto

(mas não é etéreo:

traçado está com minhas

[nossas] feições

comungadas

na alma, no corpo

[manancial da alma];

fruto de extremos

na tessitura da carne,

na leveza do plácido

na fugacidade do tempo

que baila sobre nós).



Meu filho

sou eu,

és tu.

És tu, amada

que é (somos),

pleno(s),

tácito(s),

implícito(s),

claro(s),

singelo(s),

criança(s),

atemporal(is),

extático(s),

magnético(s),

tímido(s),

túrgido(s),

mítico(s),

astral(is).


(Nós)

Até a mínima filigrana de teus lábios

Adoro-te
até a mínima

filigrana

de teus lábios

grandes,

pequenos lábios

rosáceos

os quais toco

para deles

colher

teu sopro de vida:

vivo de ti.

sábado, 1 de outubro de 2011

Fragmentos de um discurso amoroso

O espelho

que reflete

tua nudez extática



é o mesmo que,

em cacos,

esfacela-me o rosto



Narciso afogado

nas águas claras

do teu nome.

Até a mínima filigrana de teus lábios

Adoro-te

até a mínima

filigrana

de teus lábios

grandes,

pequenos lábios

rosáceos

os quais toco

para deles

colher          

teu sopro de vida:

vivo de ti.

A galinha morta

Sábado de manhã e estou fazendo o almoço.

A galinha resfriada na gaveta da geladeira

já não se imagina_ nunca imaginou-se se bem verdade.

As melhores partes, já picadas e limpas; numa sacola à parte

cabeça, moela, pés e fígado. Ela me olha com seu olhar morto, pobre,

indigno. Estou com a faca na mão. Poder ou dor secreta.

Um certo desejo de fazer mal reprimido.

Furo os olhos que já não enxergam, espinico eles. Giro a lâmina,

desço até um inexistente pescoço, subo até a crista descorada, abro o bico:

grito dentro dele meu canto de ódio, a dor do ser; o desespoir de não ter um canto

que me faça esquecer uma outra dor.

Sexo de velhos

Quando pensava: sexo de velhos, logo vinha na cabeça toda uma gama de impressões, das mais diversas, mas sempre ligadas ao estranhamento porque não se imaginava, não mesmo, na condição de mulher da sua idade dada a tais coisas.

Casada foi e foi mulher de um homem só, a vida todinha. E disso muito se orgulhava quase como que a ostentar tal verdade numa enorme letra vermelha cravada no peito, camafeu familiar que denotava distinção e limpeza moral.

Irretocável.

Sim.

Era irretocável em sua aparência de mulher com mais de sessenta anos.

Cabeça esguia coroada de prata; olhos fundos e brilhantes como duas esmeraldas no fundo de uma bateia; boca vincada na face com um quê de fel nas extremidades.

Quando falava não falava: proferia certezas e verdades.

E quando calava dizia também, mulher para a qual ou era bola ou era búlica. Não podia haver na vida meio-termo, segundo seus julgamentos tão bem estabelecidos, organizados e embasados ao longo dos anos corridos a fio na roca da vida.

(Se pudesse gritaria ao mundo sua condição, coisa muito improvável porque não cabia aos velhos professar fé alguma).

Era, a seu ver, inexorável (palavra tão pesada e carrancuda como si) carregar sobre os ombros a obrigação de ser uma anciã, chefe tribal dos sistemas matriarcais primitivos.

Em suas veias a história da família. Na cabeça a história do mundo. E no peito, apenas no peito, este espaço tão pequeno e apertado do corpo humano, a história própria que já ia tão longe e sem significado.

Portava também, via de princípios, no que era muito austera, repúdio por tudo que não fosse digno de ser beijado como as chagas do Cordeiro suspenso e crucificado e martirizado em sua parede, prova indelével do seu sacrifício particular.

Velho não podia fazer sexo, não mesmo.

Nunca se imaginara beijando outro velho (credo!) na boca, no meio da praça como a dizer: olhem! amamos e queremos chocar a todos!, porque na sua cabeça de pensares exatos o amor era um acinte, uma vez que a paz e a ordem familiar eram mais importantes do que qualquer busca pessoal.

Não sabia bem desde quando havia ficado velha.

Envelhecera e pronto.

A vida era um fato e o futuro cristalizado em presente e o presente sempre visto do retrovisor.

... Passado...

Então cabia viver e não se entregar a devaneios romantizados acerca daquilo que foi ou deixara de ser.

Sabia bem que velho não é estar, é ser mesmo, sem subterfúgios.

Absurdo seria na sua idade aceitar os estremecimentos passionais causados por um toque mais íntimo.

Não tinha mais um par de peitos duros para serem tocados com os lábios úmidos e nem um sexo candente para, lubrificado, envolver de maneira acolhedora. E suas mãos, trêmulas de tantos sobressaltos, não poderiam erguer um membro intumescido em sinal de vitória, benesse dos deuses.

Por dentro estava seca, agreste.

A barriga triste não era mais recepo de vida, vaso pleno de azeite. Era espaço do qual emergia vez e outra certo som incômodo como cavernas noturnas plenas de morcegos e animais peçonhentos.

Isso.

Sexo, a essas alturas, tinha viscosidade de coisa sobejada.

Mas não pensar é pensar.

E quanto mais pensava se lhe ia remexendo algo por dentro das entranhas e que quase saltava à boca. Vômito, talvez. Enjôo da vida pregressa se avolumando com força catastrófica.

Ai, que duro viver sendo velha!

Quantas e quantas vezes sentira de pertinho o cheiro das tias e teve pena delas! Coitadas... Não concebera nunca, agora confessava, que um dia também velha como elas se tornaria tendo um cheiro de água morna de banheira de bebê onde se misturam notas de urina e fezes.

Não, Meu Deus! Não podia cheirar a mijo e bosta! Isso não.

E logo se culpara de pensar palavras tão feias. Se mamãe estivesse ali, na sua intimidade, certamente repreender-lhe-ia com firmeza, bem como no dia em que, indo rumo ao altar, disse que o noivo lhe soava um tanto quanto piegas.

Deixe de bobagens, minha filha. Quem disse que homem tem de ser príncipe? Tem é que dar casa e dar conta da família e do que dela vem, asseverou a velha.

A velha, Meu Deus! A velha!

E fez um gesto de assombro e reprovação com a mão.

Correu a ponta do nariz por onde dava conta em seu corpo.

Graças, Senhor! Não estou maculada com nódoas nem fedentinas.

Mas sabia que não cheirava mais à colônia e rosas e brisa do mar e cheiro de montanha e orvalho.

Tinha cheiro de velha, jeito de velha, cabeça de velha; sexo de velha.

Era uma velha.

E cada vez que nisso pensava mais tinha vontade de mergulhar em tais elucubrações.

E ia ficando, claro, mais velha.

Aproximava-se sempre e mais do fundo abissal dos pensamentos pondo-se mais distante do sexo e da vida, para si, indissociáveis, enquanto jovem.

Estava morta, pois.

Menino e homem, homem e mulher

Antes que sentisse o gozo, avesso da dor, pôde sentir os beijos (boca e língua quentes), a pele (veludo e couro de cobra), e a luz dos seus olhos (profundidade do cosmo). E era ainda menino sendo recebido no corpo de mulher. Sentiu medo, dor e delícia de ser o que era: menino. Sentiu medo, claridade e sombra, tudo e nada até não ter mais medo de morrer e ser apenas o que era: não ser mais menino. Homem. As veias tiniam no corpo; se embebeu em vida no entre-coxas da mulher. No mais, o que importava? Era homem. E eis o essencial.Mistério. Cáustico e fatídico. Amou sem amor, porque não podia ser amor. Era sexo tão somente; coisa que não leva e nem trás, que não faz sentido fora de si e que não promete e nem cumpre e que não apresenta e nem esconde e que não leva ao mar nem às estrelas nem aos confins. Nada, nada. Nada além de contato, fremir de carnes, espasmos, desatinos, secreções; protuberâncias. Se um dia havia nascido tinha de ser para aquilo: nascer de novo, dum outro corpo que não o de sua mãe (mas sabia que toda mulher carregava um pouco de mãe dentro de si). E por isso mesmo, procurava pelo corpo da outra o segundo nascer. Nascera primeiro menino, sem força e querer. Mamar o peito da mãe era a certeza. E agora, ó Deus? Fazer o quê? Ouvir a verdade silenciosa e sem palavras da outra? Inútil, inútil, pois o aquele corpo, recepo de amor-sem-amor, não era nada além de simulacro (mas era também Alfa e Ômega). E era preciso muita lama e luz e sujeira e dor e montanhas (cruzes, espinhos e coroa) para aquilo tudo superar. Era o caso de purificar, de louvar, de mentir, de ver no dilúvio a chagada e a redenção. Era caso de ser a própria nuvem que esconde o sol, luz e imensidão que trás dos distantes nortes a novidade, o estado diferente das coisas. Queria o batismo. Mas como? Ele é quem tinha o poder, não ela, simples fonte de vida que sem pensamento não era vida. Quis fustigá-la, maldizer-la; amá-la. Chorou, chorou e chorou. Se era, não poderia chorar, ora! Mais uma vez estava desgraçado. E duas vezes por quem deu-lhe a vida. Não podia ter a palavra perfeita e nem eterna no canto de sua boca, no tubo de sua garganta (plena de nós) para dizer o que queria e prantear o que pensava. Já havia, decerto (e fatalmente), gozado.

De volta ao começo

Antes de sair da casa deixando toda sua vida para trás, tratou de botar o prato dele dentro do forno com arroz, feijão, carne cozida e salada de tomate e alface. Também cuidou de alimentar o canário belga do filho e d=o coelhinho malhado da caçula. Depois regou as samambaias da sogra que repousavam, plácidas, sob o telhado dos fundos, de colher a roupa no varal, conferir se o gás não estava vazando e se as janelas dos quartos não estavam abertas; ia chover, sabia disso. Depois, subiu ao quarto e pôs no papel as palavras de adeus. Sobrescritou o envelope endereçando-a ao marido. Antes de sair do quarto, colocou as chinelas do homem no devido lugar, bem ao seu gosto. Desceu as escadas e, antes de sair, conferiu mais uma vez o gás e as janelas. Deu mais uma torcida na torneira do banheiro. Abriu a porta da frente, trancou-a e meteu as chaves debaixo do vasinho de violetas, presente dos filhos no último dia das Mães. Sabia que o menino sempre esquecia as chaves, tão parecido com o pai até na distração. Desceu os quatro degraus que davam para a pequena aléia do jardim, obra do falecido sogro na qual brotavam já as primeiras floradas. Decidiu regar as plantas. Regou-as. Enrolou a mangueira na velha roda de Kombi dependurada no muro e dirigiu-se ao velho portão de ferro que sempre rangia ao abrir. Colocou a chave no ferrolho; girou-o. É, começou a chuviscar, pensou. Deu meia-volta, passou pela aléia, pegou o molho de chaves debaixo do vaso de violetas e se decidiu a partir no dia seguinte. Mas não partiu.