Quando pensava: sexo de velhos, logo vinha na cabeça toda uma gama de impressões, das mais diversas, mas sempre ligadas ao estranhamento porque não se imaginava, não mesmo, na condição de mulher da sua idade dada a tais coisas.
Casada foi e foi mulher de um homem só, a vida todinha. E disso muito se orgulhava quase como que a ostentar tal verdade numa enorme letra vermelha cravada no peito, camafeu familiar que denotava distinção e limpeza moral.
Irretocável.
Sim.
Era irretocável em sua aparência de mulher com mais de sessenta anos.
Cabeça esguia coroada de prata; olhos fundos e brilhantes como duas esmeraldas no fundo de uma bateia; boca vincada na face com um quê de fel nas extremidades.
Quando falava não falava: proferia certezas e verdades.
E quando calava dizia também, mulher para a qual ou era bola ou era búlica. Não podia haver na vida meio-termo, segundo seus julgamentos tão bem estabelecidos, organizados e embasados ao longo dos anos corridos a fio na roca da vida.
(Se pudesse gritaria ao mundo sua condição, coisa muito improvável porque não cabia aos velhos professar fé alguma).
Era, a seu ver, inexorável (palavra tão pesada e carrancuda como si) carregar sobre os ombros a obrigação de ser uma anciã, chefe tribal dos sistemas matriarcais primitivos.
Em suas veias a história da família. Na cabeça a história do mundo. E no peito, apenas no peito, este espaço tão pequeno e apertado do corpo humano, a história própria que já ia tão longe e sem significado.
Portava também, via de princípios, no que era muito austera, repúdio por tudo que não fosse digno de ser beijado como as chagas do Cordeiro suspenso e crucificado e martirizado em sua parede, prova indelével do seu sacrifício particular.
Velho não podia fazer sexo, não mesmo.
Nunca se imaginara beijando outro velho (credo!) na boca, no meio da praça como a dizer: olhem! amamos e queremos chocar a todos!, porque na sua cabeça de pensares exatos o amor era um acinte, uma vez que a paz e a ordem familiar eram mais importantes do que qualquer busca pessoal.
Não sabia bem desde quando havia ficado velha.
Envelhecera e pronto.
A vida era um fato e o futuro cristalizado em presente e o presente sempre visto do retrovisor.
... Passado...
Então cabia viver e não se entregar a devaneios romantizados acerca daquilo que foi ou deixara de ser.
Sabia bem que velho não é estar, é ser mesmo, sem subterfúgios.
Absurdo seria na sua idade aceitar os estremecimentos passionais causados por um toque mais íntimo.
Não tinha mais um par de peitos duros para serem tocados com os lábios úmidos e nem um sexo candente para, lubrificado, envolver de maneira acolhedora. E suas mãos, trêmulas de tantos sobressaltos, não poderiam erguer um membro intumescido em sinal de vitória, benesse dos deuses.
Por dentro estava seca, agreste.
A barriga triste não era mais recepo de vida, vaso pleno de azeite. Era espaço do qual emergia vez e outra certo som incômodo como cavernas noturnas plenas de morcegos e animais peçonhentos.
Isso.
Sexo, a essas alturas, tinha viscosidade de coisa sobejada.
Mas não pensar é pensar.
E quanto mais pensava se lhe ia remexendo algo por dentro das entranhas e que quase saltava à boca. Vômito, talvez. Enjôo da vida pregressa se avolumando com força catastrófica.
Ai, que duro viver sendo velha!
Quantas e quantas vezes sentira de pertinho o cheiro das tias e teve pena delas! Coitadas... Não concebera nunca, agora confessava, que um dia também velha como elas se tornaria tendo um cheiro de água morna de banheira de bebê onde se misturam notas de urina e fezes.
Não, Meu Deus! Não podia cheirar a mijo e bosta! Isso não.
E logo se culpara de pensar palavras tão feias. Se mamãe estivesse ali, na sua intimidade, certamente repreender-lhe-ia com firmeza, bem como no dia em que, indo rumo ao altar, disse que o noivo lhe soava um tanto quanto piegas.
Deixe de bobagens, minha filha. Quem disse que homem tem de ser príncipe? Tem é que dar casa e dar conta da família e do que dela vem, asseverou a velha.
A velha, Meu Deus! A velha!
E fez um gesto de assombro e reprovação com a mão.
Correu a ponta do nariz por onde dava conta em seu corpo.
Graças, Senhor! Não estou maculada com nódoas nem fedentinas.
Mas sabia que não cheirava mais à colônia e rosas e brisa do mar e cheiro de montanha e orvalho.
Tinha cheiro de velha, jeito de velha, cabeça de velha; sexo de velha.
Era uma velha.
E cada vez que nisso pensava mais tinha vontade de mergulhar em tais elucubrações.
E ia ficando, claro, mais velha.
Aproximava-se sempre e mais do fundo abissal dos pensamentos pondo-se mais distante do sexo e da vida, para si, indissociáveis, enquanto jovem.
Estava morta, pois.